Fé e budismo de RPG
Sou uma cristã que entre os crentes eu seria tachada de “desigrejada”, ou seja, a minha fé não depende de nenhuma igreja, pastor, congregação, profeta ou o que quer que seja. É um assunto particular, entre Deus e eu, e eu me sinto muito bem e feliz assim.
Para eu chegar a esse ponto de não sentir mais vontade de frequentar nenhuma igreja, foram muitas decepções com pastores, pregações cheias de ódio e preconceito, desfiles de narcisistas nas igrejas, muita falsidade, muito ego… e tudo isso acabava contaminando o ambiente e fazendo eu me sentir sufocada, quase sem fôlego! Já tentei frequentar algumas igrejas depois disso mas sempre tenho essa sensação de opressão, energia de muito ego e pessoas mais preocupadas em puxar saco de pastor do que verdadeiramente adorar a Deus. Enfim, são muitos traumas. Prefiro seguir com a minha fé em privado.
Agora vamos ao budismo. No meu passado, em uma época de desgosto com o cristianismo que acabou afetando o meu relacionamento com Deus, o budismo era uma opção que me atraía. Eu gostava daquela ideia de silêncio, paz, meditação, impermanência, compaixão, etc. Então eu até cheguei a praticar meditação em um templo budista humanista mas não prossegui, eu gostava mais de ir ao templo pra contemplar o silêncio e o sossego. Ou seja, não cheguei a me aprofundar e nem mesmo pesquisei a fundo do que se tratavam realmente as vertentes do budismo.
Quer dizer, eu sabia sobre Sidarta Gautama, considerado o Supremo Buda, que foi um príncipe que abriu mão de todas as suas riquezas e seguiu uma caminhada espiritual para entender como ajudar os seres a lidarem com o sofrimento, e através de muita meditação foi transmitindo ensinamentos de compaixão até que em dado momento Sidarta atingiu um elevado grau de entendimento da sua existência: a iluminação - se tornando Buddha (o desperto). Essa era a bonita história que eu conhecia e esperava encontrar no budismo.
Mas como estamos lidando com seres humanos e tudo o que o ser humano comum toca, estraga, com o budismo não seria diferente. Mais ou menos da mesma forma que pegaram ensinamentos de Jesus Cristo e transformaram na bizarrice que se tornou o comércio da fé no ocidente.
Descobri há poucos dias que o budismo tem mais de 84 mil variações, assim como no cristianismo temos milhares de denominações. O ser humano é basicamente assim: se acha já expert ou iluminado, então abre o seu próprio centro budista ou igreja pra massagear o próprio ego ou, em muitos casos, ficar rico às custas da fé dos outros. Lamentavelmente é isso.
Mas o que me chocou realmente no budismo foi uma variação tibetana específica conhecida como Vajrayana. Para contextualizar, o Supremo Buda levou anos para atingir a iluminação e seus ensinamentos foram transmitidos por via oral, ou seja, ninguém anotava nada, apenas decoravam informações gigantescas e assim esses conhecimentos foram sendo transmitidos com o passar dos séculos. Com certeza essas informações foram modificadas e ajustadas à visão de cada um que se julgava iluminado e assim foram criando seus próprios métodos e seus próprios templos.
Pois bem, o budismo Vajrayana eu entendi como sendo um “atalho” para atingir a iluminação, em que os lamas (professores) usam práticas ocultistas, como visualização, canalização, tantra e outros rituais a fim de fazer o ser atingir a iluminação mais rapidamente. Mas pense nessa jornada como um RPG: você começa com uma meditação simples, recita mantras, visualiza uma deidade à sua frente… e conforme você vai avançando nos ensinamentos, você se visualiza como a própria deidade. Entenda isso como uma espécie de reprogramação mental. Os acessos a essas fases mais avançadas exigem retiros de 3 dias, 1 semana, 1 mês, podendo chegar a 3 anos se você puder pagar por isso. A receita é típica de qualquer ritual: com o jejum você enfraquece o corpo e a mente, não se alimentar com carne abaixa seus níveis de vitamina B12 e outros minerais importantes pro bom funcionamento do seu corpo e mente, então você se torna uma mente “vazia”, pronta para ser reprogramada para não sofrer mais, não sentir raiva, eliminar o orgulho e ter mais compaixão pelos outros seres sencientes.
Ou seja, pegaram parte dos ensinamentos puros do Supremo Buda, modificaram, adicionaram esoterismo e rituais controversos a fim de atingir mais rapidamente o grau de Buda. É um processo bem testado, devem ter protocolos para o caso de alguém começar a alucinar, enlouquecer ou entrar em depressão profunda durante o processo de reprogramação.
Esse budismo Vajrayana pode ser considerado elitista (mais do que os outros), os alunos vêem seus lamas e rinpoches quase como divindades, aliás, o rinpoche pelo que entendi é um lama que na vida passada escolheu voluntariamente retornar só para continuar ensinando (mesmo já sendo iluminado e teoricamente não precisando mais retornar ao Samsara). Samsara é a vida cíclica em que você nasce, adoece, envelhece e morre, em que as consequências do seu Karma (causas e efeitos) são vividos nesse ciclo de Samsara por vidas e vidas, podendo o ser inclusive retornar como animal ou inseto.
Fiquei uma semana pesquisando o que encontrei sobre esse tema, com certeza tem muito mais informação mas não acho que seja necessário porque já entendemos que o comércio da fé não tem limites. O RPG da vida real tem endereço e custa caro: tanto pro bolso como pra mente.
Vivendo a aprendendo.